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Um pontinho fervilhado de Trairas
A natureza cria condições perfeitas para a reprodução e proteção dos peixes, aos pescadores esportivos resta protegê-los

Ádamo Andrade Gonçalves
adamogoncalves@uol.com.br

Pescar traíra com iscas artificiais tem algumas manhas que só o tempo e bastante treinamento acabam ajudando o pescador a encontrar os peixes e efetivamente fisgá-los. Com isca natural (pedaços de peixe ou mesmo peixe vivo), a pescaria é relativamente mais simples e até certo ponto mais produtiva, já que as traíras são meio preguiçosas e raramente perseguem uma isca por grandes distâncias. Seus potentes ataques acontecem mais quando a isca passa perto de sua área de caça. Aí, sim, a coisa é de uma brutalidade danada.
Mas como encontrar bons pontos para pegar as traíras com iscas artificiais? Em pequenos lagos, as traíras preferem os pontos mais rasos e com alguma estrutura para se abrigar. Aí vale de tudo, desde plantas, pedras, troncos e até na lama mesmo ela costuma se esconder. Em grandes lagoas e represas, a situação é mais complicada e encontrar as traíras pode levar tempo. Quando a pressão de pesca é grande, fica ainda mais difícil. No entanto, existem locais inecessíveis para os pescadores que usam redes ou tarrafas. E é aí que agente tem que cuidar bem desses pontos e rezar para que as condições do tempo (chuva e vento, principalmente) ajudem a preservar essas estruturas.



No sábado de Carnaval fui conferir um desses pontos que nosso grupo de amigos tenta preservar há alguns anos na Represa de Santana, em Piraí (RJ), mas que nem sempre está acessível para lançar nossas iscas. Na semana anterior estive por lá, mas as algas continuavam tomando todo o fundo da grota e a entrada também estava cheia delas. Isso em função do vento, que move as algas pela represa, criando condições para as espécies se reproduzirem com relativa segurança.
Mas no sábado as condições de pesca já estavam bem melhores. A entrada da grota estava livre das algas da superfície, mas todo o fundo, onde normalmente moram as grandonas, continuava sendo protegido pelas algas. Esta situação cria um ambiente excepcional para quem gosta de pescar com iscas artificiais. Já que as algas da superfície saem, mas no fundo ficam os chamados "pinheirinhos", que dão condições para os peixes se escaparem durante a briga.
Comecei a pescar bem antes do ponto, em um trecho com muita incidência de tucunarés e de algumas traíras menores, além de saicangas e do pacu-pratinha. Bati as beiradas por mais de hora e nada. Nem sinal de peixe. As chuvas estão sujando a água e isso acaba alterando o comportamento das espécies. Peixe mesmo só uma saicanga que o amigo Carivaldo engatou na Bom Bom, da Aicás.
Decidi, então, enfrentar a lama e chegar até o pontinho das traíras. Deu um pouco de trabalho, mas cheguei. Aí foi só abrir uma clareira de tamanho suficiente para que os arremessos não enroscassem no capim. Pronto! O ponto estava ali bem na minha frente depois de um longo tempo protegido pela ação da natureza. Como já havia batido com todo tipo de iscas de superfície, escolhi para começar uma meia-água prata de dorso azul que não me lembro o nome nem a marca. Na ansiedade de comprar a isca, acabei jogando a caixa fora na loja mesmo. Só sei que nada bem demais e flutua lentamente.



O primeiro arremesso foi o mais distante possível, para atingir as beiradas e fazer a isca passar quase por dentro da vegetação submersa. Mas não deu nem tempo da isca afundar. Logo uma movimentação dentro das plantas denunciou a presença delas. E a pancada foi seca, sem tempo para ver o peixe, que engatou e se embrenhou nas algas. A linha gemeu com ele forçando para ir mais para o fundo. Esse escapou, deixando a isca cheia de algas.

Dei uma ajeitada na isca e conferi o líder. Tudo certo, novo arremesso. Dei o primeiro toque e recolhi bem devagar. Três bocadas levantaram a isca e a traíra dessa vez estava ferrada. Escolado depois do primeiro ataque, nem deixar ela pensar em ir para o fundo. Recolhi bem rápido e no limpo deixei ela fazer força. Subi o barranco, fiz as fotos e soltei a traíra na beirada. Não era das maiores, mas brigou bonito.



Refeito da emoção, voltei a bater aquela mesma beirada, com os lançamentos cada vez mais pra dentro da grota. Em um desses lances, bem no centro da minha área de arremesso, duas traíras saíram como um foguete do fundo. Acreditem: uma dando trombada na outra. Mantive o recolhimento contínuo, mas elas estavam tão atrapalhadas uma com a outra que não alcançaram a isca. Tentei encontrá-las em outros pontos e nada das duas. Arremessei de novo ainda mais para dentro e no meio do caminho saiu outra traíra de dentro das algas e engoliu metade da isca. Impressionante como a garatéia tava quase na garganta do bicho. Fiz algumas fotos e a soltei na beirada. Tentei outros arremessos nos pontos onde registrei as ações, mas não vi mais sinal delas.
Uma chuvinha fina e fria começou cair e o vento aos poucos foi aumentando. Os mesmos fatores climáticos que ajudam a preservar os peixes pareciam estar me tocando de lá. Resolvi atender e me embrenhei pelo mato até outro ponto, onde voltei a trabalhar as iscas de superfície. Demorou um pouco, mas um pequeno tucunaré amarelo veio do fundo e acertou em cheio a Alimai 85, da Kingfisher. Estava com a varinha de 10 libras e a briga foi intensa, mesmo com peixe pequeno. Para meu azar, na beirada do barranco, o peixe deu uma última cabeçada e escapou na água escura. Fiquei sem a foto do meu primeiro peixe na Alimai.
Depois de uma hora, o tempo deu uma trégua e como na volta teria que passar obrigatoriamente pelo pontinho das traíras, voltei a arremessar iscas de superfície. Nesse ponto a água está clara e dá perfeitamente para ver a ação dos peixes a 20 ou 30 metros de distância. Lancei a Banana Boat, da Yo-Zuri, prateada e outro tucuninha partiu pra cima dela. Peixe de 500 gramas, no máximo. Como eu estava no alto do barranco, fiquei enrolado para subir o peixe e ele não bobeou. Escapou também.



Do lado esquerdo do ponto havia um raseiro com água bem clara e deu para ver um casal de tucunarés passeando. Banana Boat vôou e passou uns 10 metros por eles. Trabalhei bem rápido e notei os peixes se armando conforme a isca se aproximava deles. Foi um ataque atrás do outro.

Seguiram a isca (e batendo nela pra valer) até onde eu estava na beirada. No último golpe, entrou o menor. Soltei bem rápido, pois estavam cuidando de filhotões de uns 3 centímetros, que também vieram acompanhando as explosões.

A chuva voltou e resolvi voltar para a estrada, onde reencontrei os amigos. Conversamos um pouco e partimos para outro ponto da represa, pois ainda dava tempo de encontrar outros peixes.

Ádamo Andrade Gonçalves é jornalista e guia de pesca esportiva

Como chegar
São Paulo - Pela Rodovia Presidente Dutra são 350 km até Piraí
Rio de Janeiro - Também pela Dutra, 90 km até Piraí

Hospedagem
Há várias opções em Piraí ou no município vizinho de Barra do Piraí

Contato
(24) 2443-8478

Opções
Além da pescaria, a região tem várias opções de turismo rural, com fazendas históricas do período dos barões do café.



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